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O debate interminável sobre o sistema de cotas universitárias do Brasil

Alisson dos Santos Rodrigues, um estudante de 18 anos da cidade de Cerqueira César, no interior de São Paulo, seria a primeira pessoa de sua família a estudar no prestigiado sistema universitário público do Brasil.

Depois de passar no vestibular estadual, foi aceito no curso de medicina da Universidade de São Paulo (USP), recebendo uma das vagas reservadas para candidatos negros, multirraciais e indígenas no âmbito do sistema de cotas raciais do Brasil.

Mas no final de fevereiro, após viajar cinco horas até São Paulo naquele que seria seu primeiro dia de aulas, descobriu que sua matrícula havia sido cancelada. A comissão julgadora da universidade decidiu que Alisson, que sempre se identificou como multirracial, não era de fato negro ou multirracial.

Algo semelhante aconteceu com Glauco Dalalio de Livramento, de 17 anos, que perdeu a vaga no curso de Direito da USP este ano quando outra comissão julgadora discordou de sua autoidentificação como multirracial.

As famílias de ambos os estudantes levaram a universidade a tribunal. No caso de Alisson, um tribunal de sua cidade natal deu à USP um prazo de cinco dias para explicar o motivo da desclassificação do jovem de 18 anos. Enquanto isso, um tribunal estadual emitiu liminar para restabelecer a matrícula de Glauco, da qual a escola pode recorrer.

As cotas raciais existem nas universidades públicas brasileiras desde 2002, concebidas como uma forma de ajudar a equilibrar as desigualdades de longa data do país no acesso ao ensino superior. No entanto, os casos de Alisson e Glauco — dois adolescentes cuja auto-identificação como multirracial parece apropriada — suscitaram um debate nacional sobre a forma como as quotas são atribuídas e a justiça do sistema como um todo.

“A primeira etapa da política de cotas raciais é a autodeclaração, quando a pessoa entende que pode ser vítima de alguma forma de discriminação racial por não ser branca”, explica Luiz Augusto Campos, professor de sociologia e ciências políticas da Universidade do Rio. Universidade do Estado de Janeiro (UERJ) e especialista em raça e ações afirmativas.

“Aí você combina isso com uma classificação externa que busca simular o olhar da sociedade e validar essa autodeclaração.”

Tanto Alisson quanto Glauco conquistaram vagas na USP por meio do chamado Provão Paulista, nova modalidade de vestibular para universidades públicas do estado de São Paulo. Para os alunos que se habilitam a vagas universitárias pelo Provão e pelo sistema de cotas raciais, a classificação externa da identidade racial é realizada de forma virtual, com uma banca examinadora analisando cada candidato por vez.

A necessidade de cotas

Instituições privadas pagas têm um baixo nível de admissão – aceitando quase todo e qualquer aluno, desde que possam pagar as mensalidades muitas vezes exorbitantes, as universidades públicas do Brasil são gratuitas e oferecem alguns dos melhores ensinos que o país tem a oferecer. . Como tal, os seus exames de admissão são altamente competitivos e os estudantes ricos, cujas famílias podem pagar o ensino secundário privado, recebem uma clara vantagem desde o início.

“[Before racial quotas]o ensino superior público era uma máquina que reproduzia e ampliava as desigualdades do Brasil… Quando você instaura ações afirmativas, você permite que indivíduos de escolas públicas, que são negros, tenham acesso às universidades públicas”, diz Campos. O Relatório Brasileiro. “Na verdade, você justifica a própria existência do ensino superior público.”

Atualmente, as leis de cotas estabelecem que 50% dos estudantes admitidos em universidades públicas devem provir de escolas públicas. Dentro dessa metade, as vagas deverão obedecer a percentuais mínimos de candidatos negros, multirraciais e indígenas, de acordo com a demografia estadual do censo nacional.

Segundo dados do censo de 2022, pouco mais de dez por cento dos brasileiros se identificam como negros, enquanto 45 por cento — mais do que qualquer outro grupo — se declaram como negros. pardoou multirracial.

Tomado literalmente, o termo parda refere-se a um tom de marrom e é usado no Brasil para se referir a pessoas de ascendência mestiça indígena, europeia e, sobretudo, africana.

“O maior contingente de pardos são de ascendência africana. Pardos e negros estão muito mais próximos em termos de chances de mobilidade social do que pardos e brancos, por isso a inclusão deles nas cotas raciais é fundamental”, explica Campos.

Em meados da década de 1990, apenas uma pequena fração dos estudantes universitários do Brasil eram negros. Em 2018, dezasseis anos após a introdução das quotas raciais, mais de metade dos estudantes universitários eram não-brancos. “As cotas mudaram a cara do ensino superior no Brasil”, acrescenta Campos.

Classificação racial externa

Durante quase duas décadas, a importância e a validade das cotas nas universidades públicas causaram muita polêmica no Brasil. É revelador, portanto, que o clamor público em relação aos casos de Alisson e Glauco tenha sido menos sobre a existência de cotas raciais, e mais sobre aspectos específicos de sua implementação – nomeadamente a classificação racial externa, um sistema usado para evitar que estudantes brancos recebam indevidamente vantagem da ação afirmativa.

Para Campos, as soluções para o problema nunca serão fáceis, pois a própria raça é uma construção social.

“As pessoas são quem vê a raça; possuem ideias subjetivas que os fazem classificar os outros de diferentes maneiras, seja pela cor da pele ou por outras características. Há muita variação nisso porque é tudo subjetivo e sempre será. Nunca haverá um algoritmo que nos diga se as pessoas são negras ou não, porque raça não é biologicamente objetiva.”

Em resposta à indignação pública com o cancelamento da matrícula de Alisson e Glauco, a USP divulgou comunicado no qual explica os critérios utilizados para identificar se os candidatos são negros, multirraciais ou indígenas.

A escola disse que sua análise de raça é “estritamente fenotípica”, usando características como “cor da pele, cabelo e formato do corpo”. [candidates’] boca e nariz.”

Embora muitos especialistas a favor das quotas raciais reconheçam a necessidade de um sistema em vigor para desencorajar a fraude, tais critérios físicos não se enquadram confortavelmente num país que luta contra o racismo generalizado. “No momento em que você faz uma lista com o tamanho do nariz e o que quer que seja, você dá a impressão de que raça é uma classificação objetiva”, alerta Campos.

Cotas sociais?

Roberta Fragoso, advogada e promotora do Distrito Federal do Brasil, não é contra as cotas de ingresso nas universidades públicas brasileiras em si, mas argumenta que elas deveriam aderir a critérios sociais e econômicos em vez de critérios raciais.

“Setenta e cinco por cento dos pobres no Brasil são negros, então se você avançar com as cotas sociais você pode ter critérios objetivos, como a renda familiar”, diz ela O Relatório Brasileiro. “É possível oferecer acesso à universidade aos negros pobres sem o fardo de passar por estes ‘tribunais raciais’” – como a Sra. Fragoso descreve bancas examinadoras externas.

No entanto, cotas sociais baseadas na renda e no ensino público já existem no sistema brasileiro, já que 50% das vagas vão para candidatos que estudaram na rede pública de ensino médio. Além disso, o argumento contra tais quotas puramente socioeconómicas é que ignoram o racismo que existe independentemente da classe. Embora a desigualdade racial no Brasil esteja muito próxima da desigualdade de renda, não é uma correlação exata.

“Quando você controla a classe socioeconômica, você ainda vê uma desigualdade estritamente racial [in Brazil]”, ressalta Campos. “Se você comparar as chances de mobilidade social de um negro pobre, será a metade da de um branco pobre.”

O argumento de Fragoso, no entanto, não é negar o racismo que existe no Brasil independentemente da classe socioeconômica — ela argumenta, na verdade, que o racismo “inegavelmente existe em todos os níveis da sociedade brasileira — mas é uma tentativa de contornar casos como os de Alisson e Glauco, onde a autoidentificação é multirracial, não é aceita.

“Hoje no Brasil a mulher pode entrar no cartório e se autodeclarar homem. A autodeclaração é suficiente em cotas para pessoas trans, por exemplo. O Brasil deveria adotar uma política em que aceitasse a autodeclaração racial e potenciais casos de fraude fossem identificados e punidos, ou adotasse cotas sociais que ainda ajudariam os negros pobres que delas necessitam.”

O futuro das cotas universitárias

Como O Relatório Brasileiro mostrou em artigo de 2022, há consenso entre especialistas de que as cotas raciais trouxeram um alcance até então desconhecido às classes sociais mais baixas, compostas em sua maioria por pessoas de cor. A pesquisa também mostrou que o ingresso de “alunos cotistas” não alterou significativamente a nota de ingresso nas universidades, nem a qualidade dos cursos ou o desempenho dos alunos.

“Fizemos uma pesquisa há alguns anos e descobrimos que em cerca de 15% dos cursos públicos de graduação os alunos cotistas tiveram notas de ingresso maiores que os demais”, conta Campos. O Relatório Brasileiro. “Então, nesses 15% de cursos, as cotas não eram mais necessárias. Se forem bem sucedidos, acabarão por se anular.”



Com informações de Brazilian Report.

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