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Porto Alegre ainda poderia estar seca se seus sistemas de proteção contra enchentes funcionassem

As inundações são uma ocorrência comum nas cidades brasileiras. Todos os anos, milhares de regiões em todo o país sofrem com dilúvios agravados por uma notória falta de planeamento urbano no meio de uma emergência climática da qual os países em desenvolvimento suportam o impacto.

O Rio Grande do Sul, o estado mais ao sul do Brasil, conhece bem as fortes chuvas e os danos que elas podem causar. No ano passado, um ciclone extratropical atingiu a região Sul do Brasil, causando fortes chuvas e inundações e matando dezenas de pessoas.

Sete meses depois, a região enfrenta desafios semelhantes, mas mais graves. Nos últimos dez dias houve 25% da precipitação esperada para todo o ano no Rio Grande do Sul. Segundo o Ogmet, serviço meteorológico, oito das dez cidades onde mais choveu no mundo na última quinta-feira estavam localizadas no estado mais ao sul do Brasil.

A destruição material generalizada foi sentida em mais de 77% dos 495 municípios do Rio Grande do Sul, e 95 mortes foram registradas até agora, com outras 134 pessoas desaparecidas. Estima-se que 1,4 milhões de pessoas tenham sido afectadas pelas cheias, enquanto mais de 200 mil foram forçadas a abandonar as suas casas.

Em Porto Alegre, capital do estado – que abriga uma região metropolitana com uma população de mais de 4,4 milhões de habitantes – mais de 85% das famílias não têm acesso à água potável. O centro histórico da cidade está submerso depois que o rio Guaíba, nas proximidades, transbordou as comportas de 3 metros de altura.

Sérgio Hoff, bancário de 39 anos da cidade de Canoas, adjacente a Porto Alegre, reclama que a resposta das autoridades municipais e estaduais tem sido lenta – e foi a sociedade civil que interveio para preencher a lacuna.

“Inicialmente, [municipal and state officials] enviou um alerta de inundação basicamente dizendo aos cidadãos para sobreviverem com o que têm. Fomos deixados à nossa própria sorte”, explica Hoff, acrescentando que perdeu todos os seus bens, incluindo a sua casa.

“Não consegui falar com o meu pai nem com o meu tio, ambos pescadores, porque ficaram dias retidos a ajudar os vizinhos presos nas suas casas com os seus barcos, pois não havia ali uma forte presença estatal.”

Histórias como estas são quase tão difundidas quanto a destruição. Para o professor da rede pública Renato Levin Borges, 41 anos, foram os esforços de civis como ele e de muitos outros da região que amenizaram os impactos das enchentes.

Com milhares de seguidores nas suas contas nas redes sociais, o Sr. Borges utiliza o seu tempo livre da escola para ajudar a reunir e organizar informações atualizadas sobre a crise em curso.

“Embora eu não tenha um grande alcance, tenho algum, então tenho me concentrado nisso. Meu maior papel tem sido mesmo organizar as informações, sempre tentando manter as pessoas informadas porque o cenário muda muito”, explica, acrescentando que também está recebendo inúmeros pedidos de resgate em diversas cidades da Grande Porto Alegre.

As redes sociais têm sido parte integrante da coordenação de resgates, sejam eles de cidadãos, animais de estimação ou gado. Marina Pombo atuou como socorrista nos últimos dias e viu a rapidez com que os cidadãos atendem ao chamado, em contraste com as autoridades municipais e estaduais.

As vítimas das inundações queixaram-se da fraca resposta do governo. Organizações não governamentais se esforçaram para preencher essa lacuna. Foto: Marx Vasconcelos/Código 19/Folhapress

“Descobrimos que o nosso mapa de cheias, feito por um investigador, estava mais actualizado do que o utilizado pelos serviços de emergência”, conta Dona Pombo. O Relatório Brasileirodescrevendo a resposta oficial à crise como um desserviço aos residentes locais.

As investigações sobre o mau funcionamento dos sistemas de controle de enchentes de Porto Alegre ainda estão em andamento, mas Rodrigo Paiva, pesquisador do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH-UFRGS), conta O Relatório Brasileiro que o que aconteceu no Rio Grande do Sul foi de fato um evento extremo que quebrou todos os recordes existentes.

O atual sistema de proteção contra inundações no entorno de Porto Alegre foi implementado após as enchentes de 1941. Em teoria, deveria proteger a cidade de níveis de água de pelo menos 6 metros acima da média – o que significaria que o sistema foi projetado para resistir aos níveis atuais do rio Guaíba.

“O que aconteceu foi que algumas destas comportas falharam, uma delas quebrou, outras não foram devidamente seladas e permitiram a entrada de água e as bombas de água não aguentaram o fluxo”, explica Paiva, dizendo que o sistema de diques foi eficaz na protecção contra esta inundação, sobretudo ao adiar o impacto.

“Se não tivéssemos esse sistema, a destruição teria sido muito maior. Mas por outro lado, a operação e manutenção destes diques não eram perfeitas. Se fosse, Porto Alegre ainda estaria seco.”

A crise climática no Rio Grande do Sul está longe de terminar. Mais chuvas e temperaturas mais baixas estão previstas para esta semana e durante o fim de semana, colocando ainda mais pressão sobre os esforços da sociedade civil e do governo.

Pior ainda, espera-se que o nível da água desça lentamente. De acordo com simulações recentes realizadas pelo IPH-UFRGS, o rio Guaíba deve permanecer acima dos 5 metros de altura nos próximos dias. Na cheia de 1941, foram necessários 32 dias para o nível descer abaixo dos 3 metros e abaixo das comportas.

Politicamente, a crise levou Eduardo Leite, o governador do estado, a pedir um programa semelhante ao Plano Marshall para reconstruir o Rio Grande do Sul.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já visitou a região em mais de uma ocasião e declarou neste domingo estado de calamidade em 336 dos 495 municípios do Rio Grande do Sul, o que ajuda a acelerar o recebimento de recursos federais para a recuperação econômica.



Com informações de Brazilian Report.

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