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O Festival de Parintins e a lenda do boi-bumbá

Quase todos os não-brasileiros já ouviram falar das grandes celebrações do Carnaval do país, e muitos podem até estar familiarizados com as festividades da colheita de São João que arrebatam o Nordeste do Brasil durante os meses de junho e julho. Além do mais, muitos estrangeiros conhecem as históricas rivalidades futebolísticas entre Flamengo e Fluminense, Grêmio e Internacional, ou Palmeiras e Corinthians.

Mas poucos, se é que algum, terão ouvido falar do Festival de Parintins, realizado anualmente na cidade amazônica de mesmo nome, no último final de semana de junho. Mesmo assim, é uma das maiores festas do Brasil e palco de uma das maiores rivalidades do Brasil.

O Festival de Parintins gira em torno da lenda folclórica do boi-bumbáou bumba-meu-boi, e seu espetáculo central consiste em uma competição entre duas equipes tradicionais, para ver quem conta melhor a história.

Como diz uma das versões mais comuns da história, uma escrava nordestina grávida chamada Catirina pediu ao marido Chico que comesse língua de boi no jantar. Seguindo a vontade da esposa, Chico matou o boi mais valioso da terra do senhor e por isso foi preso. O senhor de escravos, muito chateado com a morte de seu boi, chama um padre indígena para tentar trazer o animal de volta à vida. Cheio de alegria ao ver seu boi vivo novamente, o senhor de escravos perdoa Chico e Catirina, e toda a fazenda faz uma festa dedicada ao boi.

As duas equipes, chamadas Caprichoso e Garantido, apresentam cada uma sua própria exibição recontando a lenda, com danças elaboradas, música, desfiles vibrantes e fantasias e carros alegóricos deslumbrantes.

A competição dura três noites e acontece no estádio Bumbódromo de Parintins, construído especialmente para o festival e decorado metade com o azul do Caprichoso, metade com o vermelho do Garantido.

Cada equipe tem duas horas e meia por noite para impressionar os jurados e o público com sua narrativa, coreografia e apresentações artísticas. Os pontos são concedidos em 21 categorias, abrangendo desde fantasias e música até o entusiasmo dos torcedores de cada time. Esta intensa competição culmina com a declaração do vencedor do festival, título que traz imenso orgulho aos vencedores.

Foto: T Fotografia/Shutterstock

A disputa acontece todos os anos desde 1966, com exceção de um hiato de dois anos durante a pandemia de Covid. Na classificação geral, o Garantido lidera com 32 títulos, contra 25 do Caprichoso, mas este último chega à competição de 2024 com uma sequência de duas vitórias consecutivas.

A importância econômica do Festival de Parintins para o estado do Amazonas não pode ser subestimada, e a edição de 2024 deverá superar a dos anos anteriores, com até 1.000 voos operando de e para Parintins durante a semana do festival. A previsão é que esse fluxo traga 120 mil turistas à cidade e injete mais de R$ 150 milhões na economia local.

O festival cria aproximadamente 30 mil empregos diretos e indiretos, beneficiando diversos setores, incluindo hotelaria, transporte e varejo. Pequenos negócios prosperam nesse período, como os artesãos locais, os famosos tricicleiros (taxistas triciclos) e vendedores de alimentos. Na verdade, as duas equipes concorrentes Caprichoso e Garantido geram cerca de 5.000 empregos diretos só por meio de seu trabalho durante todo o ano construindo carros alegóricos, confeccionando fantasias e realizando ensaios e apresentações.

A Firma do Boi: Caprichoso x Garantido

Embora a rivalidade festiva entre Caprichoso e Garantido possa soar como uma brincadeira divertida e alegre, é tudo menos isso. Como um clássico do futebol profundamente arraigado, o próprio Parintins é dividido nos moldes do Boi-Bumbá, com ruas, casas e até mesmo os trajes das pessoas refletindo sua lealdade ao Caprichoso ou ao Garantido.

O Garantido é visto como o mais popular dos dois, com seu boi vermelho e branco representando o time das massas. Já o Caprichoso se orgulha de ser o time da “inovação”, sendo responsável por ser pioneiro nas transformações musicais e decorativas do festival.

Na verdade, a influência da rivalidade se estende às grandes marcas, que adaptam suas identidades visuais para atender aos fãs do Caprichoso e do Garantido. As famosas latas vermelhas da Coca-Cola e da cerveja Brahma produzem embalagens azuis de edição especial para o evento, fortalecendo sua conexão com o consumidor local. Para este ano, a companhia aérea parceira oficial do festival, Azul, revelou um avião pintado meio azul e meio vermelho.

Notoriamente, a única vez que os torcedores dos dois times se encararam foi neste ano, durante a final da edição mais recente do reality show Big Brother Brasil. Espectadores de toda a região Norte, incluindo Caprichoso e Garantido, apoiaram a concorrente Isabelle Dias, dançarina do Garantido desde 2015, na esperança de que ela pudesse levar a coroa ao Amazonas.

Nas últimas quatro edições do festival, Dona Dias desempenhou o papel de cunhã-poranga nos desfiles do Garantido, personagem guerreira descrita no folclore como a mulher mais bonita das tribos indígenas locais e a guardiã da floresta tropical. Ela participará do festival deste ano mais uma vez.

Mas o momento de união entre os dois rivais foi infrutífero e de curta duração. Isabelle terminou em terceiro no Big Brother, e a rivalidade aumentou mais uma vez entre Caprichoso e Garantido, que deve chegar ao auge mais uma vez no Bumbódromo, no final de junho.



Com informações de Brazilian Report.

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