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Inundações no Brasil: engenheiros e eleitores apontam o dedo aos políticos

Enquanto as inundações continuam a devastar o Rio Grande do Sul, o estado mais meridional do Brasil, uma onda de desinformação continua a ser bombeada para o discurso público.

Sem a menor evidência, vários vídeos e postagens nas redes sociais afirmam que as enchentes foram causadas por uma decisão supostamente tomada pelo governo federal de abrir as comportas das barragens do rio Taquari, no estado. As autoridades estaduais desmascararam a teoria da conspiração, mas ela se tornou viral mesmo assim.

Mais recentemente, até oficiais do Exército encarregados de ajudar a mitigar a crise espalharam falsidades, ecoando um falso alarme de rompimento de uma barragem e realizando uma evacuação desnecessária. O Exército dispensou temporariamente do serviço os militares envolvidos no caso e abriu uma investigação interna.

Dito isto, as autoridades não são isentas de culpa pelo desastre e podem de facto ter contribuído para as inundações. Vários políticos, incluindo o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, trabalharam para flexibilizar centenas de pontos da legislação ambiental, eliminando medidas cautelares e permitindo a exploração imobiliária em áreas de risco.

Mas, mais do que isso, a responsabilidade directa dos governos pelas falhas dos mecanismos anti-inundações das cidades está em debate.

Sebastião Melo, prefeito da capital Porto Alegre, enfrentou um pedido de impeachment de curta duração. A petição, apresentada pelo presidente do Sindicato dos Moradores de Porto Alegre (homem ligado ao esquerdista Partido dos Trabalhadores), acusava o prefeito de negligenciar a manutenção das estações elevatórias e do sistema de drenagem urbana da cidade.

Segundo o documento, a Prefeitura há anos recebe alertas sobre deficiências nas estações elevatórias, mas não toma as medidas necessárias —nem mesmo depois das enchentes que afetaram gravemente a cidade em setembro de 2023. Os cidadãos também reclamaram que os alertas de evacuação foram emitidos com atraso.

O prefeito nega a omissão e atribui a catástrofe ao volume excessivo de chuvas, maior do que o previsto nas décadas anteriores. Ele rejeitou o pedido de impeachment como uma disputa política, sugerindo uma ligação entre a petição e as eleições municipais de outubro.

Com a ampla coalizão do prefeito na Câmara Municipal, o pedido de impeachment foi declarado morto na chegada, sendo rejeitado na noite de quarta-feira.

Um sistema robusto sem manutenção

Devido à sua geografia, diversas cidades do Rio Grande do Sul são muito suscetíveis a inundações – vulnerabilidade que se torna mais pronunciada pela intensificação de condições climáticas extremas causadas pelas mudanças climáticas. Grandes inundações, por exemplo, ocorreram em 1941 e 1967, embora a catástrofe de 2024 tenha sido a maior de todas.

O estado construiu um sistema anti-inundação na década de 1970, inspirado nos sistemas utilizados nos Países Baixos, e foi bem visto pelos especialistas. Atualmente, esse sistema tem 68 quilômetros de extensão e utiliza diques de terra, um muro de 2,65 quilômetros, 14 comportas e 23 casas de bombas para impulsionar a água de volta ao rio.

Mas o sistema não funcionou adequadamente diante das chuvas deste ano. Projetado para suportar um nível de água de até 6 metros, não suportou os 4,5 metros que atingiram Porto Alegre.

Segundo o Sindicato dos Engenheiros do Rio Grande do Sul, em documento assinado por mais de 40 profissionais, o sistema da capital falhou por não ter recebido a manutenção necessária. Até bombas móveis poderiam ter sido instaladas.

“No ano passado, quando o sistema foi acionado durante as enchentes que começaram no Vale do Taquari e que inundaram também a região metropolitana [of Porto Alegre], as deficiências nas comportas tornaram-se visíveis. Eles eram fáceis de consertar, mas não eram [fixed]”, afirmaram os especialistas.

Segundo a Secretaria de Águas e Esgotos de Porto Alegre, o lixo e a areia arrastados pelas primeiras enchentes também contribuíram para o entupimento de ralos e sistemas de bombeamento e drenagem. Problemas na rede elétrica também afetaram o funcionamento das bombas.

Nesse efeito cascata, sucederam-se episódios de enchentes, à medida que as chuvas voltavam a atingir a cidade.

O papel das barragens nas cheias

O rompimento parcial da barragem 14 de Julho, no dia 2 de maio, impulsionou falsas narrativas sobre as causas e os responsáveis ​​pela tragédia, assim como a possibilidade de abertura das comportas de outras duas barragens também

O rompimento da barragem 14 de Julho ocorreu quando a estrutura já estava submersa, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica, que investiga o episódio.

Além disso, nesses três casos, as barragens não foram construídas como diques de contenção de enchentes, mas como estruturas de integração de usinas hidrelétricas que operam na modalidade “fio d’água”, ou seja, sem represar o curso dos rios.

Como tal, a abertura das comportas apenas alivia a pressão sobre as estruturas da barragem e não é capaz de influenciar os volumes de fluxo de água. É o que acontece na maioria das hidrelétricas do estado.

Alguns engenheiros dizem, no entanto, que deveriam ser construídas mais barragens destinadas a conter as inundações. Não obstante, afirmam também que a legislação ainda é um obstáculo a este tipo de construção, contornando barragens para geração de energia ou garantia de saneamento.



Com informações de Brazilian Report.

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